TRANSPORTE COLETIVO

11/02/2010 12:03

Mesmo com transporte público de qualidade, o brasileiro deixaria o carro em casa? É possível reverter o fascínio pelo carro? Como fazer isso - ou, contra todas as opções acima, essa deveria ser uma preocupação real? Conversamos com psicólogos, jornalistas, urbanistas e pesquisadores do tema para saber suas opiniões sobre o presente e o futuro dos automóveis na cidade e na vida das pessoas.

"O fascínio dos brasileiros pelo automóvel é inegável e a indústria automobilística teve e tem seu papel no crescimento econômico do País e na geração de empregos. Mas a realidade coloca o carro numa posição diferente da que ele ocupava no passado. É importante termos garagens não mais em áreas centrais das cidades, mas em estações de metrô, onde também é preciso haver bicicletários. O automóvel é um meio de locomoção auxiliar e não o principal. Por isso, os investimentos no transporte coletivo devem ser em qualidade e em quantidade."

Marcio Fortes, Ministro das Cidades

"O carro parece representar liberdade de ir e vir, comodidade e segurança, embora nas grandes cidades tais percepções não correspondam à realidade de congestionamentos, poluição e violência no trânsito. O automóvel é um espaço privado ambulante numa sociedade cada vez mais fechada à convivência pública. Não adianta melhorar apenas o transporte coletivo se problemas como desigualdade social, crime e deterioração de espaços e serviços públicos persistem. É preciso transformar a cidade e a cultura urbana de um modo mais geral."

 

Daniela Sandler, professora-assistente de História da arte e cultura visual da arquitetura e História urbana na Universidade da Califórnia

 

 

"Existem muitos fatores associados à posse do automóvel que o tornam opção preferencial. Associado à melhoria do transporte público é necessário implantar restrições à circulação dos automóveis, como os rodízios, pedágios urbanos, áreas de circulação exclusivas do transporte público, bem como incentivos ao transporte não motorizado, restrições de estacionamento nas áreas críticas etc., como já ocorre em várias cidades do mundo. Isso deve ser uma preocupação real, pois o espaço viário urbano não cresce na mesma proporção da frota de veículos, provocando um aumento dos congestionamentos e impactos diretos na qualidade de vida."

 

 

Carlos Alberto Bandeira Guimarães, professor do Departamento de Geotécnica e Transporte da Unicamp

 

 

"Gostar de carro não é pecado. O automóvel é uma das mais interessantes ferramentas criadas pelo homem, uma máquina que amplia as possibilidades do exercício do direito de ir e vir. Com o avanço da tecnologia, ele está cada vez mais seguro, eficiente e sedutoramente confortável. A questão é o uso que se faz do carro. Quem não tem prazer em pegar uma boa estrada em companhia da família? Sair quando quiser, parar onde e quando der vontade... Agora pergunte ao mais apaixonado dos proprietários o que ele acha de ficar encarcerado numa pequena "cela" por horas num congestionamento. É evidente que se houvesse a opção de um transporte urbano razoavelmente confortável, a hipótese de reservar o carro para os momentos de lazer seria cogitada até mesmo por quem mais gosta de dirigir. Seria mais econômico, confortável e exporia tanto o motorista como seu objeto de paixão a menos riscos."

 

 

Sérgio Berezovsky, diretor de redação da revista Quatro Rodas

 

 

"O automóvel é fetiche, representa um lugar social e se configura como um modo de subjetivação. Vendido como liberdade, velocidade e autonomia, indica o crescimento econômico de um país e é reforçado como um item de consumo capaz de equilibrar os disparates financeiros, à revelia dos acidentes de trânsito e do mal-estar social. Ainda assim, hipnotizados, sonhamos com os modelos veiculados pela mídia e a possibilidade de um universo paralelo que nos suspenda da dura realidade de quatro horas de engarrafamento diário. Inverter essa lógica implica romper o paradigma mercadológico de mobilidade urbana. Requer coragem, ousadia, transformação de hábitos (do individual ao coletivo), revolução de valores e novas referências culturais. Desafia o poder público para políticas intersetoriais que envolvam segurança, habitação, novos desenhos e configurações urbanas e o apoio da população na guinada de 360 graus de uma cultura de mobilidade que atravesse nossos egos e nos coloque como semelhantes e com equidade no uso dos espaços públicos."

 

 

Gislene Maia de Macedo, doutora em Psicologia pela USP e professora da Universidade Federal do Ceará, com linha de pesquisa em Mobilidade humana, trânsito e subjetividade

 

 

"Há três fatores: conforto, status e personalidade do condutor. O primeiro é quase fácil de entender: transportes públicos nunca deixam as pessoas exatamente em seu destino, nem na hora em que gostariam. Isso gera perda de tempo e sabemos que tempo é dinheiro. Para todos os que vivem uma vida frenética e não querem se atar ao horário dos outros, um transporte público melhor não seria a solução. Para outros, carro é um símbolo de status. Fala sobre o indivíduo, suas preferências, sua posição social, seu salário. Coloca-o entre pessoas que atingiram seus objetivos de vida, mesmo que não os tenham atingido. Essas pessoas normalmente usam o carro para construir uma imagem de si mesmas, diferente da real, como uma maquiagem, da mesma maneira que o fazem com roupas, artigos tecnológicos etc. Essas pessoas não usariam um transporte público porque manter a imagem delas mesmas é importante, e a perda do carro poderia fazer isso desmoronar. Finalmente, há quem use o carro como uma extensão de si mesmos. Para alguns homens, é um instrumento de masculinidade, permitindo ficar em contato com ele e mostrá-lo a todos. O carro é visto como um tanque, uma armadura com a qual se pode encarar o mundo. Para algumas mulheres, é como um abrigo, no qual elas podem esconder-se do mundo ao redor e ficar em contato com sua profunda intimidade. O transporte público representaria a perda de uma importante ferramenta para sustentar as necessidades de sua personalidade. Todas as outras pessoas que não tenham uma ligação tão complicada com seus carros usariam o transporte público se ele fosse um pouco melhor."

 

 

Francesco Albanese, Presidente do Psicolab (Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento em Psicologia), em Florença, Itália

 

fonte: http://www.revistaau.com.br//arquitetura-urbanismo/191/artigo161832-1.asp